Álcool e Câncer de Mama: Revisão de evidências para Profissionais de Saúde

A relação entre o consumo de álcool e o aumento do risco de câncer de mama tem sido objeto de numerosos estudos científicos.

Enquanto campanhas de conscientização como o “October Sober” destacam a importância de reduzir o consumo de álcool, muitos profissionais de saúde ainda se deparam com incertezas sobre como aconselhar pacientes devido às mensagens ambíguas transmitidas pela indústria do álcool e seu marketing.

Por esse motivo, decidi reunir aqui as principais referências científicas sobre o assunto, para que vocês possam ter embasamento no momento de orientar seus pacientes!

O Vínculo entre Álcool e Câncer de Mama:

A pesquisa tem consistentemente mostrado que o consumo de álcool está associado a um aumento no risco de vários tipos de câncer, incluindo o câncer de mama.

Estudos epidemiológicos revelam que mulheres que consomem álcool diariamente têm um aumento de 7 a 10% no risco de desenvolver câncer de mama por cada bebida consumida regularmente, enquanto aquelas que consomem 2 a 3 bebidas diárias têm cerca de 20% mais risco comparado às não consumidoras, comparado às não consumidoras.

Mecanismos Biológicos Envolvidos:

  1. Alteração dos níveis hormonais: O álcool pode aumentar os níveis de estrogênio e outros hormônios associados ao risco de câncer de mama.
  2. Metabolização do álcool: O metabolismo do álcool produz acetaldeído, uma substância conhecida por ser carcinogênica.
  3. Interferência com a absorção de nutrientes: O álcool pode reduzir a capacidade do corpo de absorver nutrientes vitais que protegem contra o câncer, como vitaminas A, C, D e E.

Revisão dos Estudos Científicos:

  1. Relatório da OMS (2021): Sublinha que o álcool é um dos maiores fatores de risco modificáveis para o câncer de mama, com o consumo responsável por quase 40.000 novos casos na região europeia da OMS em 2020.
  2. Meta-análise de Sun et al. (2020): Analisou o impacto do tipo de bebida alcoólica e encontrou um aumento significativo no risco de câncer de mama com o consumo de álcool, particularmente com o vinho.
  3. BCRF – Alcohol and Breast Cancer Risk (2023): Este artigo fornece uma visão abrangente sobre como o consumo de álcool está vinculado ao aumento do risco de câncer de mama. A Breast Cancer Research Foundation (BCRF) destaca que mesmo o consumo moderado de álcool pode levar a um aumento modesto no risco de câncer de mama, e esse risco aumenta com o aumento da quantidade de álcool consumido. O artigo também discute como o metabolismo do álcool no corpo pode contribuir para o desenvolvimento de células cancerígenas ao influenciar os níveis de estrogênio e outros hormônios.
  4. Liu Y, Nguyen N, Colditz GA – Links between Alcohol Consumption and Breast Cancer: A Look at the Evidence (2014): Este estudo revisa a evidência existente relacionando o consumo de álcool com o risco de câncer de mama. Liu, Nguyen e Colditz discutem como estudos epidemiológicos têm consistentemente encontrado uma associação positiva entre o consumo de álcool e o aumento do risco de câncer de mama, independentemente do tipo de álcool consumido. Eles também exploram os mecanismos biológicos possíveis por trás dessa associação, incluindo o impacto do álcool nos níveis hormonais e seu papel como solvente que facilita a penetração de carcinógenos no tecido mamário.

E por que temos resultados controversos?

Estudos como o de Chu et al. (2020) demonstram  que diferentes abordagens analíticas podem influenciar significativamente as estimativas de associação entre o álcool e o câncer de mama, destacando a necessidade de cautela ao interpretar estes estudos.

Nesse outro estudo (Shield et al, 2016) temos uma revisão crítica da literatura sobre o uso de álcool e o risco de câncer de mama. Shield e colegas analisam uma ampla gama de estudos e destacam que o álcool é considerado um fator de risco estabelecido para o câncer de mama.

Eles discutem as variações nos resultados dos estudos devido a diferenças metodológicas e a necessidade de considerar fatores como padrões de consumo e diferenças individuais no metabolismo do álcool. Este estudo também sublinha a importância de políticas públicas eficazes para reduzir o consumo de álcool na população geral como uma medida de prevenção do câncer.

Dicas Práticas para Profissionais de Saúde: Na nossa prática clínica, é comum encontrarmos situações onde existem dificuldades em mudar o estilo de vida tanto por motivos econômicos como também emocionais e culturais, principalmente quando se trata de comida ou álcool.

Portanto, é sempre importante trazer dados científicos sem julgamento e respeitar o processo de tomada de consciência de cada um.

Encorajar a educação em saúde sobre os riscos associados ao consumo de álcool, indicando livros e filmes e apoiar aqueles que escolhem reduzir ou eliminar o álcool de suas vidas através de apoio multidisciplinar ou mesmo tratamento medicamentoso quando necessário.

Para auxiliar na tomada de decisão, ferramentas como diários de consumo e intervenções comportamentais podem ser úteis.

Um livro que indico muito (tanto para pacientes quanto para colegas) é o livro “Quit like a Woman”, de Holly Whitaker

(Link da amazon: https://www.amazon.com.br/dp/B0828Z1WT4?linkCode=ssc&tag=onamzribdeand-20&creativeASIN=B0828Z1WT4&asc_item-id=amzn1.ideas.V6EWC8DA950U&ref_=aip_sf_list_spv_ons_mixed_d_asin )

Infelizmente ele só tem versão em inglês, mas traz dados importantes e dicas práticas para cessar o consumo de álcool, especialmente por mulheres.

Conclusão:

Este post visa fornecer aos profissionais de saúde um resumo das principais evidências científicas sobre esse tema.

Recomendo muito a leitura dos artigos na íntegra, para entender de forma mais detalhada os mecanismos biológicos, e com isso estarmos mais preparados para o aconselhamento e o cuidado dos nossos pacientes.

E que a gente não se esqueça: somos profissionais mas também merecemos cuidado!

Espero que esse post te inspire a ser exemplo e também tomar o primeiro passo na redução do álcool.

Com carinho, Juliana.

(Dra. Juliana Gabriel é médica endocrinologista, PhD. CRM-SP 127584 RQE 30.007)

Referências:

  1. WHO/Europe. Alcohol is one of the biggest risk factors for breast cancer. [Internet]. 2021. Available from: Alcohol is one of the biggest risk factors for breast cancer .
  2. Sun Q, Xie W, Wang Y, et al. Alcohol Consumption by Beverage Type and Risk of Breast Cancer: A Dose-Response Meta-Analysis of Prospective Cohort Studies. Alcohol Alcohol. 2020;55(3):246-253. doi:10.1093/alcalc/agaa012.
  3. BCRF. Alcohol and Breast Cancer Risk [Internet]. 2023 [cited 20 October 2023]. Available from: Alcohol and Breast Cancer Risk | Breast Cancer Research Foundation .
  4. Liu Y, Nguyen N, Colditz GA. Links between Alcohol Consumption and Breast Cancer: A Look at the Evidence. 2014. Available from: Links between Alcohol Consumption and Breast Cancer: A Look at the Evidence – Ying Liu, Nhi Nguyen, Graham A Colditz, 2015 .
  5. Chu L, Ioannidis JPA, Egilman AC, Vasiliou V, Ross JS, Wallach JD. Vibration of effects in epidemiologic studies of alcohol consumption and breast cancer risk. Int J Epidemiol. 2020;49(2):608-618. doi:10.1093/ije/dyz271.
  6. Shield KD, Soerjomataram I, Rehm J. Alcohol Use and Breast Cancer: A Critical Review. Addiction Research and Clinical Epidemiology. 2016. Available from: Alcohol Use and Breast Cancer: A Critical Review .
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